A Embaixadora com a educação no bolso – A Embaixadora de Portugal em Moscovo entregou as credenciais diplomáticas a Putin na Rússia e decidiu não cumprimentar o anfitrião.
Num tempo em que até o protocolo se desfaz na cultura diplomática, e cada um carrega para as funções as miudezas dos seus problemas psicológicos e a massa de preconceitos que só dificultam as funções de que foi investido, perplexos estão os russos pelo facto de a senhora que enviámos à Rússia como nossa embaixadora ter sido a única a recusar o aperto de mão a Putin, limitando-se a entregar as cartas como quem entrega um bacalhau.
É o que dá tantas “relações internacionais” e “ciências políticas” carregadas de baias e enviesamentos ideológicos. Se a senhora não se sentia bem na indicação do posto, devia ter ficado nas Necessidades ou, então, pedir ao secretário-geral do MNE colocação num qualquer bantustão europeu. Entra com o pé esquerdo.
A embaixadora de Portugal na Rússia apresentou as suas credenciais sem cumprimentar Vladimir Putin. O gesto não foi ostensivo, mas, ainda assim, parece-me um erro.
A diplomacia existe precisamente para funcionar quando a afinidade política é inexistente ou mesmo quando há hostilidade aberta. A História oferece exemplos eloquentes disso. Durante a Segunda Guerra Mundial, o embaixador alemão na União Soviética, Friedrich-Werner von der Schulenburg, apesar do choque ideológico absoluto entre os dois regimes, manteve relações pessoais corretas e até cordiais com Molotov. Esse respeito não significava concordância; significava civilização.
O mesmo se passou com Percy Lorraine, embaixador britânico em Itália, que foi sempre tratado com cortesia e urbanidade por Galeazzo Ciano, ministro dos Negócios Estrangeiros e genro de Mussolini. Também Joseph Grew, embaixador dos Estados Unidos no Japão, foi consistentemente tratado com extrema correção pelas autoridades nipónicas, mesmo num contexto de crescente antagonismo que acabaria em guerra aberta.
Estes exemplos lembram-nos algo essencial: o código diplomático não é um detalhe cerimonial nem um resquício anacrónico. É uma conquista civilizacional. A sua função é precisamente sobrepor-se à animosidade política, criando um espaço mínimo de respeito que permita comunicação, contenção e, em última instância, a possibilidade de evitar o pior.
Num mundo cada vez mais polarizado, emocionalmente inflamado e, em muitos aspetos, civilizacionalmente em regressão, a preservação desses códigos deveria ser mais importante do que nunca. Quando até os gestos elementares de cortesia são sacrificados em nome da sinalização moral ou do aplauso fácil, não é a firmeza que ganha, é a barbárie que avança.
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