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A ideia do devir da Nakba do mundo

Testemunhamos o mundo a tornar-se negro e o  que está em jogo nesta tese é a reprodução de lógicas esclavagistas na nova fase do neoliberalismo, e o que eu diria é que devemos substituir o sujeito negro pelo processo de catástrofe, que em árabe é precisamente a Nakba.

Ao deslocar o sujeito negro pela noção de processo catastrófico, parece-me que, hermeneuticamente, podemos pensar mais amplamente sobre um devir que se cristaliza na reprodução de formas de precariedade em nível global pelo capitalismo contemporâneo, onde este capitalismo está atualmente completamente desprovido de mediações institucionais, ou onde essas mesmas mediações institucionais funcionam de maneira cada vez mais policial, cada vez mais sustentadas por aparatos de segurança.

Nesse sentido, a Nakba mundial designa a situação em que a ordem é governada absolutamente pelo regime da força e, nesse sentido, a Nakba mundial possui dois componentes centrais: de certa forma como Marx nos ensinou, a questão sempre envolve a existência de uma contradição. Por um lado, existe essa ordem da força que é imposta, essa ordem da força que é a ordem do capital.

Mas, por outro lado, a Nakba mundial pressupõe múltiplas insurreições contra essa ordem da força que é sistematicamente imposta por todos os meios. Assim, a Nakba mundial é uma conceitualização contraditória e, precisamente por ser contraditória, é precisa. É contraditória e precisa porque explica o processo pelo qual a força é imposta e, ao mesmo tempo, multidões se levantam, o que poderíamos chamar, em outro registro, como concebeu o Comitê Invisível, de uma guerra civil planetária.

Achille Mbembe 

  • Ideia central: Achille Mbembe fala do “devir‑negro do mundo” como a generalização planetária das condições históricas impostas aos povos negros — precariedade, descartabilidade, expropriação, violência soberana — transformando-as num regime global.

    O que Mbembe chama de “devir‑negro do mundo”

    Mbembe define o devir‑negro do mundo como o momento em que a condição historicamente imposta ao negro — ser tornado descartável, solúvel, expropriável — deixa de ser exceção e torna‑se norma global. Ele descreve:

    • a transformação de populações inteiras em vidas sem futuro e sem tempo próprio
    • a expansão de regimes de captura, vigilância e violência
    • a normalização da precariedade como forma de governo

    O que é a Nakba — e porque ela se torna uma figura global

    A Nakba (1948) não é apenas um evento histórico, mas um processo contínuo de:

    • expulsão territorial
    • despossessão jurídica
    • fragmentação espacial
    • administração da vida sob exceção

    A Nakba é, portanto, um modelo de gestão colonial da vida: transformar um povo em população administrável, deslocável, vulnerável, sem soberania.

 

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