Num encontro no Paço Arquiepiscopal de Braga, o embaixador de Cuba em Portugal expôs ao Arcebispo D. José Cordeiro a grave situação socioeconómica da ilha, agravada pelo bloqueio norte‑americano. O prelado manifestou solidariedade com o povo cubano e classificou as restrições internacionais como “inaceitáveis”, apelando ao diálogo e à defesa da dignidade humana.

Durante dois dias acompanhamos, em algumas ocasiões das diversas visitas, o senhor embaixador de Cuba em Portugal, José Ramón Saborido Loidi: ouvimos as suas declarações e o apelo à ajuda internacional num momento em que a ameaça de “invasão” do país está declarada pelo presidente dos Estados Unidos.
Esta visita também coincidiu com a decisão do governo de Cuba de abrir a economia à iniciativa privada – oportunidade para que se conheçam as condições em que empresas e investidores possam aplicar os seus recursos neste país.

Embargo dos EUA contra Cuba: quando começou, quem o decretou e como mudou a economia da ilha
O embargo imposto pelos Estados Unidos a Cuba começou em plena Guerra Fria, foi decretado por John F. Kennedy em 1962 e tornou‑se um dos bloqueios económicos mais duradouros do mundo. As suas consequências moldaram a economia, a política e o quotidiano de milhões de cubanos durante mais de seis décadas.
O embargo dos Estados Unidos contra Cuba — frequentemente referido em Havana como bloqueio — é um dos episódios mais marcantes da história política do século XX.
A sua origem remonta a 1960, quando Washington iniciou restrições comerciais após a Revolução Cubana nacionalizar propriedades de empresas norte‑americanas. Mas o passo decisivo ocorreu a 7 de fevereiro de 1962, quando o presidente John F. Kennedy assinou a ordem executiva que formalizou o embargo total, proibindo praticamente todo o comércio entre os dois países.
O contexto era explosivo: Guerra Fria, alinhamento de Cuba com a União Soviética e crescente tensão no Caribe. O embargo pretendia isolar o governo de Fidel Castro e pressionar uma mudança política interna. Em vez disso, tornou‑se um mecanismo estrutural que marcou profundamente a economia cubana.
As consequências económicas foram severas. A ilha perdeu o seu principal mercado natural e o acesso a tecnologias, medicamentos, equipamentos industriais e financiamento internacional. A dependência da URSS aumentou e, após o colapso soviético, Cuba entrou no chamado Período Especial, uma crise económica sem precedentes.
Hoje, o embargo continua a afetar setores vitais como energia, saúde, transportes e telecomunicações, dificultando importações e encarecendo custos logísticos.
Politicamente, o embargo reforçou a narrativa de resistência do Estado cubano e tornou‑se um ponto central da sua política externa. Ao mesmo tempo, é amplamente criticado por organizações internacionais, que consideram que as sanções têm impacto direto sobre a população civil. A Assembleia Geral da ONU vota anualmente pela sua suspensão — e a esmagadora maioria dos países apoia o fim das restrições.
Mais de sessenta anos depois, o embargo permanece um dos temas mais controversos das relações internacionais, símbolo de um conflito histórico que continua a moldar o presente.

As sanções reforçadas por Trump agravaram a crise em Cuba e afetaram a vida da população
O endurecimento das sanções dos EUA durante a administração Trump estrangulou ainda mais a economia cubana, limitou o acesso a combustíveis, remessas e serviços financeiros e provocou um impacto direto no quotidiano das famílias. Especialistas e organizações internacionais alertam que estas medidas ampliaram a escassez e fragilizaram setores essenciais como energia, saúde e transportes.
A política de sanções dos Estados Unidos contra Cuba intensificou‑se significativamente durante a administração de Donald Trump, que reverteu a aproximação diplomática iniciada nos anos anteriores. Entre 2017 e 2021, Washington aprovou mais de duzentas novas medidas restritivas, com efeitos imediatos sobre a economia da ilha e sobre a vida das pessoas.
Uma das ações mais duras foi o reforço do bloqueio energético, que dificultou a chegada de petróleo e derivados a Cuba. Navios e empresas de transporte marítimo foram alvo de sanções, o que reduziu drasticamente o abastecimento de combustível. As consequências foram visíveis: cortes de eletricidade, paralisação de transportes públicos, limitações na produção agrícola e industrial e maior pressão sobre hospitais e serviços essenciais.
Outro ponto crítico foi a restrição às remessas familiares, uma das principais fontes de rendimento para milhares de famílias cubanas. A proibição de operações através de empresas como a Western Union e o encerramento de canais financeiros aumentaram a vulnerabilidade económica de muitos lares, sobretudo os que dependiam de apoio de familiares emigrados.
As medidas também atingiram o setor do turismo, já fragilizado. A proibição de cruzeiros norte‑americanos, o fim das viagens educacionais em grupo e novas limitações de vistos reduziram drasticamente a entrada de visitantes, afetando trabalhadores, pequenas empresas e serviços locais.
Organizações internacionais e especialistas em direitos humanos alertaram que estas políticas tiveram impacto direto sobre a população civil, ampliando a escassez de alimentos, medicamentos e bens básicos. O governo cubano descreveu este período como um dos mais difíceis desde o fim do apoio soviético, sublinhando que a pressão económica agravou desigualdades e aumentou a dependência de redes informais de sobrevivência.
Apesar das divergências políticas, há consenso entre analistas de que o endurecimento das sanções contribuiu para uma deterioração acelerada das condições de vida na ilha, com efeitos que ainda se fazem sentir.

O modelo económico cubano desafia o capitalismo financeiro? Entenda o que está em causa
A economia cubana, assente num forte papel do Estado e numa lógica de planificação central, é frequentemente vista como uma alternativa estrutural ao capitalismo financeiro global. Especialistas apontam que o modelo da ilha questiona a primazia do lucro, a financeirização e a desigualdade, mas enfrenta limitações internas e pressões externas que condicionam o seu alcance.
Desde 1959, Cuba construiu um modelo económico que se afasta das dinâmicas dominantes do capitalismo financeiro. Em vez de mercados desregulados, aposta na planificação estatal; em vez da lógica de acumulação privada, privilegia serviços públicos universais; e, em vez da financeirização, mantém o sistema bancário sob controlo público. Para muitos analistas, esta arquitetura funciona como uma crítica viva ao paradigma económico que domina o Ocidente.
Segundo estudos de economia política, o modelo cubano questiona três pilares centrais do capitalismo financeiro:
1. A primazia do lucro sobre o bem‑estar social. Cuba coloca saúde, educação e proteção social como prioridades estruturais, mesmo em contextos de crise. Esta opção contrasta com sistemas onde o investimento público depende da rentabilidade económica.
2. A financeirização da vida económica. Enquanto grande parte do mundo se apoia em mercados financeiros, dívida privada e especulação, Cuba mantém um sistema bancário estatal e limita a circulação de capitais. Para alguns académicos, isto representa uma resistência à lógica global de valorização financeira.
3. A desigualdade como subproduto inevitável. O modelo cubano procura reduzir disparidades através de políticas redistributivas e controlo estatal dos setores estratégicos. Críticos do capitalismo financeiro veem aqui uma alternativa que tenta mitigar desigualdades estruturais.
Contudo, especialistas também sublinham que o modelo enfrenta desafios internos — baixa produtividade, burocracia, dependência de importações — e pressões externas severas, como o embargo dos EUA, que condicionam o seu funcionamento e dificultam a avaliação isolada dos seus méritos.
Para alguns observadores, Cuba não representa apenas um sistema económico distinto, mas uma interrogação permanente dirigida ao capitalismo financeiro: é possível organizar a economia com base em prioridades sociais e não na lógica do mercado?
Para outros, o modelo cubano revela limites práticos de alternativas ao capitalismo num mundo globalizado.
Entre tensões, reformas e resistências, a economia cubana continua a ser um dos casos mais emblemáticos de confronto conceptual com o capitalismo financeiro contemporâneo.

Quantas pessoas vivem em Cuba e quanto ganham por ano? Os números mais recentes explicados
Cuba tem hoje pouco menos de 11 milhões de habitantes e enfrenta uma das fases económicas mais difíceis das últimas décadas. As estimativas internacionais apontam para um rendimento anual entre 7 mil e 10 mil dólares por pessoa, refletindo o impacto das sanções, da crise energética e das limitações estruturais do país.
Cuba atravessa um momento demográfico e económico decisivo. Segundo as estimativas internacionais mais recentes, a população da ilha situa‑se em cerca de 10,9 milhões de habitantes, mantendo uma tendência de declínio devido ao envelhecimento, à baixa natalidade e à emigração crescente. Este é um dos desafios centrais para o futuro do país, que vê a sua força de trabalho diminuir ano após ano.
No plano económico, os números revelam um cenário igualmente complexo. O PIB per capita, que funciona como indicador aproximado do rendimento anual médio por pessoa, varia conforme a metodologia usada pelas instituições internacionais. Os dados mais citados apontam para valores entre 7.300 e 9.600 dólares anuais, refletindo o impacto de décadas de restrições externas, dificuldades de produção interna e dependência de importações.
Especialistas sublinham que estes números não captam totalmente a realidade cubana, marcada por um sistema económico híbrido, forte presença estatal, dualidade monetária recente e limitações no acesso a bens essenciais. A crise energética, agravada pela escassez de combustíveis, tem provocado cortes de eletricidade, redução de transportes e pressão sobre serviços públicos.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta o efeito acumulado das sanções norte‑americanas, reforçadas nos últimos anos, que dificultam transações financeiras, importações e operações logísticas. Estas restrições têm impacto direto no custo de vida, no abastecimento e na capacidade de investimento.
Apesar das dificuldades, Cuba mantém indicadores sociais acima da média regional em áreas como saúde e educação, resultado de décadas de investimento público. No entanto, a sustentabilidade deste modelo depende de reformas económicas profundas e de um alívio das pressões externas que condicionam o seu desenvolvimento.
Entre desafios demográficos, limitações económicas e tensões geopolíticas, os números de Cuba ajudam a compreender a complexidade de um país que continua a procurar equilíbrio entre justiça social, soberania e sobrevivência económica.

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