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O São João que fez o Porto: a festa, a fé e a herança que poucos conhecem

Muito antes dos martelinhos, dos balões e do fogo de artifício, o Porto já vivia um São João profundo, espiritual e cheio de história. Entre burgueses da Boavista, pescadores da Foz, relíquias desaparecidas e igrejas renascentistas, a cidade construiu uma devoção que atravessa séculos e continua a definir a sua identidade joanina. Falamos aqui do São João Baptista na Invicta: o santo que deu alma ao Porto

Presidente da República no São João no Porto
Presidente da República no São João no Porto

. Artigo de Sérgio Carvalho

Falar do Porto é falar de São João Baptista. Nenhum outro santo marcou tão profundamente a identidade da cidade como aquele que, nas margens do Jordão, preparou os caminhos de Cristo. Na Invicta, São João não é apenas uma festa; é memória, património, fé popular e identidade coletiva.

Durante séculos, existiram três grandes polos das festas joaninas da cidade. Nas Fontainhas e no Bonfim, celebrava-se o São João do povo, dos operários, dos trabalhadores das fábricas, dos artesãos e das famílias humildes que enchiam as ruas de música, sardinhas e alegria. Era a festa mais genuinamente popular da cidade.

Na zona da Lapa e da Boavista floresceu um São João mais ligado à burguesia portuense, às famílias influentes e aos grandes arraiais promovidos por associações e coletividades.

Já na Foz do Douro vivia-se o São João dos lavradores e pescadores. Ali, junto ao mar e à barra do Douro, o santo era invocado como protetor das colheitas, da pesca e das comunidades que dependiam da terra e do oceano para sobreviver.

Mas São João está presente no Porto muito para além da noite de 23 para 24 de junho. A cidade possui a histórica Rua de São João, uma das mais antigas artérias do burgo medieval, testemunha de séculos de comércio, devoção e vida urbana.

O nome do Precursor está igualmente ligado a duas das grandes infraestruturas da cidade: o Hospital Universitário de São João, inaugurado precisamente no dia 24 de junho de 1959, e a Ponte de São João, obra-prima da engenharia portuguesa que continua a unir as margens do Douro.

Na Foz do Douro encontramos a mais forte presença patrimonial do santo. A Igreja de São João Baptista da Foz permanece como a única igreja da cidade do Porto dedicada ao Precursor. Próximo dela ergue-se o Forte de São João Baptista da Foz, guardião secular da entrada do Douro.

No interior da fortaleza sobrevivem vestígios da antiga Igreja de São João Baptista da Foz, uma das primeiras grandes construções do Renascimento português. Edificada no século XVI por iniciativa de D. Miguel da Silva, foi parcialmente absorvida pelas obras militares que reforçaram a defesa da barra do Douro, mas continua a testemunhar a importância histórica e espiritual daquele local.

Existe ainda uma outra dimensão menos conhecida do São João portuense: a das relíquias. Durante séculos, a antiga Igreja e Convento dos Lóios guardaram uma preciosa relíquia da Cabeça Santa de São João Baptista. Conservada numa rica cabeça-relicário, era objeto de profunda veneração por parte dos fiéis e atraía numerosos devotos à cidade.

A tradição liga esta relíquia ao antigo Mosteiro de São Salvador de Cabeça Santa, em Penafiel, de onde terá sido transferida para os Lóios. A sua fama era tão grande que marcou a própria identidade da região de Cabeça Santa, nome que permanece até aos nossos dias.

Infelizmente, a relíquia desapareceu na segunda metade do século XX, na sequência de um roubo nunca totalmente esclarecido. Ainda assim, permanece viva na memória histórica e religiosa da cidade, recordando uma época em que o Porto venerava São João Baptista não apenas através da festa popular, mas também através da presença física de uma das suas mais preciosas relíquias.

Hoje, quando milhares de pessoas descem à Ribeira, às Fontainhas, à Foz ou às ruas do centro histórico para celebrar a noite de São João, poucos imaginam a profundidade espiritual e histórica desta devoção. Por detrás dos martelinhos, dos manjericos, dos balões e do fogo de artifício existe uma herança secular construída pela fé de gerações de portuenses.

O Porto pode mudar, crescer e reinventar-se, mas continuará sempre a ser uma cidade joanina. Uma cidade que encontrou em São João Baptista o símbolo da alegria popular, da identidade comunitária e da esperança que aponta sempre para algo maior.

Porque o São João não é apenas a maior festa do Porto. É uma das suas mais antigas profissões de fé.

Sérgio Carvalho - professor e jornalista
Sérgio Carvalho – professor e jornalista

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