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Nunca é tarde para não ter medo

  • José Carlos Vasconcelos in Os Sete Sentidos e Outros Lugares

Os atos da fala do escritor inscrevem-se nos lugares da vida acolhida pelos sete sentidos. É fruto da cultura e circunstâncias do tempo que em José Carlos Vasconcelos registaram a vertente urbana de raíz rural.

Explicam-se assim as referências, os termos, e as palavras desenhadas com tempo e carinho ele que “escreve na tarde cinzenta memórias de alegria” no propósito revolucionário (de base) ao “disparar os alertas” enquanto  “sonha unir os contrários”

O livro “Os sete sentidos e Outros Lugares”  apresenta-se como uma manifestação de percepções todas elas com um sentido (aquilo que esclarece a história dos homens e das nações). Logo a abrir – para não enganar ninguém, esclarece:

Nunca é tarde para não ter medo.

Nunca é tarde para murmurar,

Ao ouvido de quem se ama,

A flor de sal de um segredo.

Avisados que estamos, preparemo-nos para a ironia fina, típica no uso falado da Corte de Lisboa, mas inspirada na rebeldia histórica da terra que lhe deu luz: Freamunde.

Aqui vai:

OS PRETOS DA PRAIA DO TAMARIZ

“A praia do Tamariz

Está pejada de pretos

– em tom que agrura (diz um janota que passa)

Todo de branco trajado,

À mulher que em tons de verde

Caminha leve a seu lado.

Paredão ou passerelle

Apetece perguntar

(o que não devo fazer,

Deixá-los com o passado…),

Paredão ou passerelle

Pata o par indignado,

De consciência tranquila,

Que neste domingo de julho,

Já não caminha, desfila?

Não sei, só sei que eles seguem,

Impávidos, sua rota:

Convencidos, elegantes,

Nada os alerta

Ou toca: tudo tudo como antes.

Mas é verdade o que diz,

Em tom que agrura denota,

Este janota de branco:

Outrora

De reis e condes,

Fidalgos e alta finança, gente de bens de raíz,

Houve uma grande mudança

Nestes lugares seletos

– e a praia do Tamariz

Está pejada de pretos.

Pretos pretos pretos pardos

Fazendo grande algazarra

Com tádios portáteis

Lá nas alturas

Mergulhando na piscona

De mar em voos acrobáticos

Pretos e outras criaturas

Avesso de gente fina

Pretos  pretos indianos

Pretos  pretos amarelos

Pretos brancos  brasileiros

Pretosbrancos  “a mistura

(como romenos ucranianos)

Tudo ao molho e à maneira

O mundo único e vário

Colorida chinfrineira

– malta das naus ao contrário

E se os janotas prosseguem

Convencidos, elegantes,

Em busca de outros lugares

Tão seletos como antes,

Damas e damos aos pares,

Banqueiros e almirantes,

Sem tipas de pé ligeiro

Que dançam mornas à toa,

Sem tipos lá do estrangeiro

Vindos do Cais do Sodré

(já não lhes basta Lisboa!),

Sem barracas de cornetos

Nem refrescos de café

Eu por mim aqui fico,

Fico e ficarei, feliz.

Que está pejada de pretos

A praia do Tamariz.

– Os Sete Sentidos e Outros Lugares, de José Carlos Vasconcelos, edição D. Quixote, 2026 pp151 a 153

Por Arnaldo Meireles

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