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A IA e o poder: por que precisamos de um novo contrato digital

Um movimento anti‑IA está a crescer nos Estados Unidos, alimentado por medo laboral, dependência digital e a expansão física dos data centers. Ao mesmo tempo, gigantes tecnológicos preparam mega‑IPOs que ultrapassam tudo o que o capitalismo já viu. Entre o receio social e a concentração inédita de capital, surge uma pergunta decisiva: como transformar a inteligência artificial num verdadeiro bem comum? De encíclicas papais a propostas legislativas, multiplicam‑se as tentativas de imaginar um novo contrato digital capaz de proteger cidadãos, redistribuir poder e garantir que a tecnologia serve a sociedade — e não o contrário.

A inteligência artificial entrou numa fase paradoxal: enquanto se torna cada vez mais presente no quotidiano, cresce também a desconfiança pública. Nos Estados Unidos, mais de 70% da população acredita que a IA está a avançar depressa demais, e 19 estados já consideram restrições à construção de novos data centers. Este movimento anti‑IA não é apenas um reflexo emocional — é uma resposta a transformações profundas no emprego, na economia e na vida digital.

1. O medo do emprego: entre alarmismo e realidade

Durante anos, figuras centrais da indústria alimentaram previsões apocalípticas. Elon Musk afirmou que metade dos empregos desaparecerá em dois anos; Dario Amodei, da Anthropic, prevê o fim de metade das posições de nível júnior em cinco anos. Estas declarações, amplificadas por meios de comunicação e redes sociais, criaram um clima de ansiedade que afeta sobretudo jovens recém‑formados.

Contudo, análises mais recentes mostram um quadro mais complexo. Pesquisadores da London School of Economics identificaram que a queda na contratação de jovens profissionais está mais ligada ao teletrabalho generalizado do que à IA. Sam Altman, da OpenAI, recuou nas previsões catastróficas e já não fala em “apocalipse do emprego”. E, apesar das transformações, os números gerais de emprego nos EUA permanecem estáveis.

Ainda assim, a perceção pública não acompanha esta nuance — e a cada demonstração de novas capacidades da IA, o medo renova‑se.

2. Dependência digital e riscos para os jovens

A crítica às plataformas digitais evoluiu: se antes se focava nos efeitos viciantes das redes sociais, agora inclui também os chatbots de IA. Processos judiciais nos EUA acusam estas ferramentas de fomentar dependência emocional, incentivar comportamentos perigosos e falhar na proteção de adolescentes vulneráveis.

Na Europa, a resposta regulatória é mais robusta. A Lei de Serviços Digitais e a Lei de Inteligência Artificial proíbem sistemas manipulativos dirigidos a menores, deepfakes abusivos e pornografia infantil gerada por IA. Estas normas representam um avanço significativo, mas levantam uma questão maior: como garantir que a tecnologia respeita a dignidade humana num ambiente dominado por interesses privados?

3. A presença física da IA: data centers e impacto ambiental

A expansão dos data centers tornou‑se um símbolo da nova economia digital. Nos EUA, megaprojetos surgem em sequência, pressionando redes elétricas, consumindo enormes quantidades de água e alterando o uso do solo. Em estados onde a consulta pública é mínima, cresce a resistência local — uma forma de “NIMBY digital” que revela tensões entre inovação e sustentabilidade.

A IA não é apenas código: é infraestrutura pesada, com custos ambientais reais. E a sociedade começa a questionar quem paga essa fatura.

4. Mega‑IPOs e concentração de capital sem precedentes

Enquanto cresce a contestação social, as grandes empresas de IA preparam operações financeiras de escala histórica. SpaceX, OpenAI e Anthropic planeiam levantar cerca de 60 a 75 mil milhões de dólares cada, com avaliações superiores a 1 bilião de dólares. O Google, já avaliado em mais de 4 biliões, acaba de concluir um aumento de capital de 85 mil milhões.

Para comparação: o maior IPO da história — Saudi Aramco — arrecadou 26 mil milhões.

Estamos perante uma concentração de capital que ultrapassa tudo o que o capitalismo tecnológico já produziu. E com ela, cresce o receio de que a IA amplifique desigualdades, reforçando o poder de poucas empresas sobre dados, infraestruturas e algoritmos que moldam a vida social.

5. A busca por alternativas: o bem comum digital

Face a este cenário, surgem propostas que procuram redefinir o papel da IA na sociedade.

A visão da Igreja Católica

Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV afirma que algoritmos, dados, plataformas e infraestruturas tecnológicas devem ser considerados bens destinados ao uso universal — parte do bem comum. Esta posição insere a IA na tradição cristã que defende que recursos essenciais não podem ser monopolizados por poucos.

Bernie Sanders - senador nos Estados Unidos
Bernie Sanders – senador nos Estados Unidos

A proposta de Bernie Sanders

O senador defende que a IA deve ser tratada como um bem comum, já que os modelos são treinados com a inteligência coletiva da humanidade. Propõe um imposto único de 50% sobre a capitalização das empresas de IA, criando um fundo soberano para redistribuir riqueza e limitar o poder das gigantes tecnológicas.

Independentemente da viabilidade política, estas ideias revelam um ponto essencial: a sociedade procura mecanismos para recuperar controlo sobre tecnologias que moldam o futuro.

Conclusão: rumo a um novo contrato digital

A revolta contra a IA não é apenas medo — é um pedido de justiça. Justiça no emprego. Justiça na proteção dos jovens. Justiça ambiental. Justiça na distribuição do poder económico.

Se a IA é construída com dados de todos, treinada com conhecimento de todos e sustentada por infraestruturas que afetam todos, então a pergunta torna‑se inevitável: quem deve beneficiar dela?

O futuro exige um novo contrato digital que coloque a tecnologia ao serviço da sociedade — e não o contrário. Entre regulações, propostas políticas e visões éticas, começa a emergir uma ideia simples e poderosa: a inteligência artificial deve ser um bem comum da humanidade.

Foto in Le Grande Continent

www.sociedadejusta.pt

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