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A vitória da AfD reacende velhos fantasmas

  • Polónia teme nacionalismo alemão

A vitória da AfD na Saxónia‑Anhalt reacendeu um velho nervo exposto na política centro‑europeia: o medo de que o nacionalismo alemão volte a interferir na segurança e na estabilidade regional. Para a Polónia, este não é apenas um resultado eleitoral num pequeno estado do leste alemão — é um sinal político carregado de memórias históricas, tensões estratégicas e riscos para a cooperação militar que hoje sustenta o flanco oriental da Europa.

A Polónia está alarmada

A reação imediata de Varsóvia — marcada pelas declarações duras de Donald Tusk e de figuras do governo — revela que o resultado foi interpretado como um abalo estratégico. A AfD obteve 43,8% dos votos, ficando a apenas três lugares da maioria absoluta . Para a Polónia, este avanço não é neutro: o partido alemão é visto como hostil à Polónia, pró‑Rússia e disposto a reabrir debates históricos que Varsóvia considera encerrados.

A memória da Segunda Guerra Mundial continua a moldar a perceção polaca da política alemã. A AfD rejeita reparações, questiona fronteiras e tolera discursos associados ao neonazismo — elementos que, para a Polónia, reativam um imaginário de ameaça existencial.

O que a vitória da AfD significa para a Alemanha?

A imprensa alemã descreveu o resultado como um “terramoto político” . O chanceler Friedrich Merz classificou-o como um choque profundo, reconhecendo que a CDU foi reduzida a metade na região. A AfD, agora legitimada como força dominante no leste, procura formar governo e já estende a mão a potenciais aliados ou desertores de outros partidos.

Este avanço não é apenas regional: analistas alertam que ele enfraquece o governo federal num momento em que a Alemanha enfrenta desafios externos — da agressão russa às tensões comerciais globais — e internos, como a erosão da confiança na política tradicional .

O ponto de fricção decisivo: a Rússia

Aqui reside o maior motivo de inquietação polaca. A AfD defende suspender sanções contra Moscovo e adota uma agenda claramente pró‑Rússia, posição considerada “perigosa e inaceitável” por Varsóvia. Esta divergência ocorre num momento em que Polónia e Alemanha reforçam a cooperação militar — incluindo o acordo de defesa no Mar Báltico e o projeto do Escudo Oriental — para conter a ameaça russa.

Se a AfD ganhar influência nacional, a Polónia teme que a Alemanha deixe de ser um parceiro fiável na contenção de Moscovo.

A contradição polaca: nacionalistas fortes, mas desconfiados da AfD

Embora a Polónia também viva um crescimento da extrema-direita — com Konfederacja e KKP a rondar os 20% — os nacionalistas polacos não celebraram a vitória da AfD. Há afinidades ideológicas (anti‑migração, euroceticismo, rejeição das políticas climáticas), mas elas não superam:

  • o trauma histórico,
  • a questão das reparações,
  • e sobretudo a posição pró‑Rússia da AfD.

Assim, mesmo partidos polacos próximos da direita radical europeia mantêm distância crítica.

Risco para a Europa Central e para a NATO

A ascensão simultânea de nacionalismos na Alemanha e na Polónia pode fragilizar a coordenação estratégica no flanco oriental da NATO. A AfD já é celebrada por autoridades russas e por Donald Trump , o que aumenta a perceção de que o partido pode alterar o equilíbrio geopolítico europeu.

Se Berlim se tornar politicamente instável ou menos comprometida com a defesa coletiva, a Polónia — que se vê como bastião contra MoscoVO — teme ficar mais exposta.

Em resumo:

A vitória da AfD na Saxónia‑Anhalt não é apenas um episódio regional:

  • Para a Alemanha, é um sinal de erosão do centro político e de crise de confiança.
  • Para a Polónia, é um alerta histórico e estratégico, que reativa memórias traumáticas e ameaça a cooperação militar vital contra a Rússia.
  • Para a Europa, é mais um capítulo no avanço da direita radical, com potenciais repercussões na estabilidade continental.

A inquietação polaca não nasce apenas do passado — nasce do receio de que, num momento de ameaça externa real, a Alemanha possa virar-se para dentro, para o nacionalismo, e para uma perigosa ambiguidade face a Moscovo.

www.sociedadejusta.pt

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