A CNIS promove o seu congresso em Aveiro de 7 a 8 de Outubro no Centro de Congressos da cidade com o tema “Pobreza e Proteção Social” – aqui fica o programa:


COMENTÁRIO
Congresso da CNIS: Dois dias de liturgia, zero dias de coragem
Quando a pobreza vira cenário e o poder ocupa o altar
A CNIS prepara-se para realizar, de 7 a 8 de outubro, um congresso sobre pobreza e proteção social — mas tudo indica que será apenas mais uma celebração da liturgia do poder, cuidadosamente coreografada para não incomodar ninguém.
O palco está montado — e não é para as IPSS
Convidam‑se figuras do poder político, representantes da Segurança Social, vozes do centro partidário e toda a constelação habitual que orbita o sistema. O resultado é previsível: um congresso oficial, domesticado, higienizado, onde a pobreza serve de tema mas não de causa.
Durante dois dias, as instituições filiadas — aquelas que sustentam a CNIS, que pagam quotas, que enfrentam diariamente a realidade social — não podem falar, não podem intervir, não podem questionar. Servem apenas para encher a sala, bater palmas e legitimar o espetáculo.
É a velha lógica: o povo como decoração, o poder como protagonista.
Cinco décadas depois do 25 de Abril, o silêncio ainda é regra
A CNIS nasceu para representar as IPSS, para amplificar as suas preocupações, para ser ponte entre o terreno e o Estado. Mas quando impede que as suas filiadas falem num congresso sobre pobreza, nega a própria razão de existir.
Mais de cinquenta anos após o 25 de Abril, este gesto não é neutro: é conservadorismo puro, é medo de debate, é aversão à democracia interna.
Transformar um congresso social num ambiente de sacristia — fechado, abafado, sem coragem — é sintoma de uma direção que prefere o incenso ao confronto, a liturgia ao pensamento, o protocolo à verdade.
A pobreza não é um tema para cerimónias — é uma urgência
Enquanto o país enfrenta novas formas de exclusão, envelhecimento acelerado, desertificação social, famílias exaustas e instituições à beira da ruptura, a CNIS escolhe o conforto do palco oficial em vez da inquietação das suas bases.
A pobreza não precisa de congressos decorativos. Precisa de voz, de debate, de ruptura, de propostas reais. E nada disso acontece quando quem vive o problema é silenciado.
Por Arnaldo Meireles




