De tempos em tempos, a voz de Jean-Pierre Elikia embarga enquanto ele enumera, de forma clínica, a violência que atingiu a sua região este ano, no leste da República Democrática do Congo: os 70 civis levados a uma igreja para serem assassinados à facada por militantes das Forças Democráticas Aliadas (ADF), um grupo terrorista islâmico; o ataque atribuído ao mesmo grupo em julho passado contra uma igreja durante uma vigília de oração, que deixou 40 mortos; e, por fim, o destino da sua própria filha, sequestrada e estuprada por militantes armados depois que sua casa foi saqueada.
Jean-Pierre Elikia vê isso como consequência de seu trabalho como pastor evangélico e do seu envolvimento com uma estação de rádio local. “O que mais dói nas vítimas é a sensação de serem esquecidas pela comunidade internacional”, enfatiza. Ele foi convidado a falar pela organização evangélica Portas Abertas, que publica um índice anual de perseguição a cristãos em todo o mundo.
A violência e a opressão são registadas
Este índice atribui uma pontuação a 50 países onde os cristãos são perseguidos, com base na violência sofrida, bem como na opressão no dia a dia (proibições de possuir uma Bíblia, praticar uma religião ou herdar bens, pressão e discriminação, vigilância de igrejas, etc.). Os países são, portanto, classificados por nível de perseguição: “grave”, “muito grave” e “extrema”, sendo que 15 países se enquadram nesta última categoria.
Segundo os resultados deste estudo, 388 milhões de cristãos, de todas as denominações, são perseguidos em todo o mundo, em comparação com 380 milhões no ano passado.
Entre eles, 4.849 foram assassinados, mais de 70% na Nigéria — números comparáveis aos do ano passado. “Os dados documentam apenas os casos em que os cristãos são alvos por causa da sua fé”, enfatiza Guillaume Guennec, codiretor da ONG, que especifica que esses fatos são verificados por meio de evidências concretas (cruzamento de depoimentos no local, reivindicações de responsabilidade por grupos armados ou quando locais de culto são alvejados).
“Dentro de uma crise mais ampla que afeta milhares de nigerianos por múltiplos motivos, existem, portanto, casos de perseguição a cristãos”, afirma o relatório. Neste país de maioria muçulmana, os muçulmanos também são alvos de grupos terroristas.
O caso da Nigéria reflete uma deterioração mais ampla da situação na África subsaariana nos últimos anos, à medida que grupos terroristas se expandem para países cada vez mais instáveis, observa a organização Portas Abertas. Burkina Faso, República Centro-Africana e Camarões estão entre os países onde a situação para os cristãos mais se agravou.
Na Índia e Síria
Segundo esses mesmos critérios, 4.712 cristãos estariam detidos em todo o mundo, incluindo quase 2.200 na Índia. A ONG está preocupada há vários anos com a repressão exacerbada pelo nacionalismo hindu.
Em 2025, o Rajastão tornou-se o 12º dos 29 estados indianos a adotar leis “anticonversão”, destinadas a suprimir conversões forçadas de hindus a outras minorias religiosas, mas que, de acordo com diversas ONGs, parecem ser amplamente utilizadas, inclusivé quando essas conversões são voluntárias.
Por fim, o relatório destaca a deterioração da situação dos cristãos na Síria, mais de um ano após a queda do regime de Bashar al-Assad. No Índice, o país caiu da 18ª para a 6ª posição em termos de perseguição. Essa estatística se explica pelo aumento da violência (cristãos mortos, igrejas atacadas).
Em junho de 2025, a Igreja Ortodoxa Grega de Santo Elias, em Damasco, foi alvo de um atentado qe matou 22 pessoas e feriu 63. ” A ascensão do radicalismo islâmico leva os cristãos a ocultarem a expressão pública de sua fé”, observa também o relatório.
Algumas comunidades relataram ter recebido panfletos exigindo a conversão ao Islão ou o pagamento de um imposto específico para não muçulmanos, embora a extensão desse fenómeno não tenha sido especificada.
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