Desenhoterapia em Gaza no caminho da dor para as cores

A “Dignity International” desenvolveu em Gaza uma iniciativa de apoio a crianças e ebtre os 6 e os 18 anos convidando-os a passar para o desenho  as imagens que povoam o seu imaginário. Ver estas emoções no papel expressa um sofrimento indescritível e aponta para os caminhos não andados na promoção do Estado da Palestina.

Antes mesmo dos primeiros traços de lápis, há imagens que vêm e vão, misturadas. Yara, de 11 anos, estava na sala quando a bomba atingiu a sua casa. A poeira, as chamas, os escombros dos quais ela e toda a sua família tiveram que ser resgatadas. O estrondo, o desabamento, os gritos de seus irmãos e irmãs, os pedidos de socorro dos vizinhos. E o tempo, que perde toda a noção de tempo, como se tivesse sido pulverizado junto com tudo o mais.

A mãe dela não sabia mais o que fazer. “Yara assustava-se com o menor ruído, chorava constantemente sem motivo aparente e recusava-se  a dormir sozinha por causa dos pesadelos”;  ” Ela isolou-se e afastou-se das brincadeiras; não queria voltar para a escola.”

Da dor às cores

Atendida em Deir Al-Balah, num dos três centros de saúde mental administrados pela ONG Dignity International, ela é uma das 169 crianças que, aqui ou na Cidade de Gaza, receberam apoio psicológico, utilizando o desenho como ferramenta para lidar com o “trauma do indizível”.

Yara desenhou a terra ameaçada por tanques, o céu por helicópteros e o chão coberto de figuras clássicas de palito — um círculo para a cabeça, retângulos para o torso, braços e pernas. Tudo acompanhado por áreas planas em vermelho sangue.

A expressão gráfica por si só não basta. De uma sessão para a outra, há exercícios de respiração, a mão no abdómen, rotinas tranquilizadoras e os pais são treinados para lidar com ataques de pânico, incentivar a brincadeira e se envolver. “Precisamos do comprometimento da família”,defende o diretor de operações, que pretende testar a fórmula para exportar para outros países devastados pela guerra.

Deste  modo, a criança aprende a identificar quem a apoia e a encontrar forças dentro de si mesma. Após um mês de terapia, Yara pronunciou esta frase crucial: “É normal sentir um pouco de medo, eu não estou sozinha”. Aos poucos, uma vida para reconstruir começa a tomar forma, baseada em temas explorados na terapia, como “o primeiro dia depois da guerra” ou “a casa do futuro”. Finalmente, Yara conseguiu prender um sol no canto de sua folha de papel A4.

“Esvaziei-me de tudo que me pesava na cabeça.”

Esta abordagem, que combina apoio psicológico e desenho, está a produzir resultados: “Na maioria dos casos, os acessos de raiva e as lágrimas diminuem”, explicaa psicóloga responsável pelo projeto. ” Isso se ilustra pela mudança na cor dos desenhos. As cenas escuras, enegrecidas a lápis, manchadas de sangue com vermelho, povoadas por monstros e personagens assustadores, deram lugar ao verde, ao rosa e ao azul das flores e do céu.”

“Por que, Deus, isso está acontecendo comigo?”

Muitas vezes, as sessões precisam lidar com o irreversível. Com o lápis, Farah, que perdeu as duas pernas, esboçou o hospital, a sala de cirurgia, os homens moribundos recitando a sua profissão de fé. Roua, de sete anos, desenhou a si mesma com muletas, ao lado desta inscrição: “Sou uma vítima da guerra, gostaria de andar com meus próprios pés. Por que, meu Deus, está isto a acontecer comigo? Mas louvado seja o Senhor.”

Se é certo que a terapia não faz milagres, ela permite pequenas melhorias. Alguns obstáculos debilitantes foram superados. 

Em parceria com o UNICEF, a “Dignity International” instalou uma tenda escolar de 48 metros quadrados em Deir al-Balah, onde os alunos recebem apoio psicológico juntamente com as aulas. Aqui também, a ONG acredita ter encontrado um modelo para uma paz duradoura. “Para as crianças, a escolarização é a fase mais importante da reabilitação após a guerra”, afirma o coordenador médico da Dignity International em Gaza. “ Elas precisam retornar ao ambiente que caracteriza o tecido social de sua faixa etária.” e acrescenta   E eles têm dois anos de escolaridade para recuperar.

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