O Bairro Social mais antigo da Alemanha

O bairro social mais antigo da Alemanha — e considerado o mais antigo do mundo ainda em funcionamento — é a Fuggerei, fundado em Augsburgo (Baviera) em 1516 por Jakob Fugger, o Rico (1459–1525).

Funciona hoje como na data da criação sendo os estatutos bem claros: renda aos dias de hoje no valor de 0,88 euros, além da obrigação de de rezar três vezes por dia pelos fundadores.

Jakob Fugger comerciante e banqueiro financiou imperadores e convenceu o Papa a liberalizar os juros dos empréstimos

A Fuggerei: o primeiro bairro social do mundo

  • Fundação: Criada em 1516 por Jakob Fugger, banqueiro e comerciante extremamente rico, como projeto filantrópico para abrigar cidadãos pobres de Augsburgo.
  • Localização: Enclave murado dentro da cidade de Augsburgo, Baviera.
  • Objetivo: Oferecer moradia digna e acessível a famílias necessitadas, mantendo regras comunitárias e religiosas.
  • Aluguel simbólico: Desde a fundação, o valor anual é de um florim renano (aprox. €0,88 hoje), além da obrigação de rezar três vezes ao dia pelos fundadores.
  • Estrutura: Em 1523 já havia 52 casas; hoje o complexo conta com ruas, praças, uma igreja e cerca de 140 residências.
  • Continuidade: Ainda hoje é habitado, mantendo o estatuto de projeto de habitação social mais antigo do mundo em funcionamento.
  • Urbanismo medieval: O bairro foi planeado como uma pequena cidade murada, com portões que se fechavam à noite.
  • Regras comunitárias: Além do aluguer simbólico, os moradores tinham obrigações religiosas e sociais, reforçando a ideia de solidariedade e disciplina.
  • Expansão: Ao longo dos séculos, o bairro foi ampliado e preservado, tornando-se também um ponto turístico e histórico

 

Quem foi Jakob Fugger

Jakob Fugger (1459-1525) foi o primeiro superbanqueiro da história. Apelidado de “O Rico”, este comerciante e banqueiro estabeleceu as bases económicas para a era moderna. “Pode-se dizer que Fugger foi o primeiro a praticar o comércio em escala global” segundo Greg Steinmetz, autor de uma biografia de Fugger: The Richest Man Who Ever Lived (o homem mais rico que já existiu, em tradução livre), publicada em 2015.

 

Escritório Fugger na Alemanha: Jakob Fugger e Matthäus Schwarz
Jakob Fugger em seu escritório. Mercadorias eram transportadas por via terrestre, pelo Mar do Norte e pelo Mar Báltico até portos marítimos como Lisboa. De lá, seguiam para o além-mar.Foto: gemeinfrei/Narziss Renner/Wikipedia

Credor de imperadores

Após a morte dos seus irmãos, Jakob Fugger assumiu sozinho, em 1510, a direção da empresa familiar e deu continuidade à política de conceder empréstimos à dinastia dos Habsburgos sob os imperadores Maximiliano 1º e Carlos 5º.

Como garantia, ele obteve acesso a minas de prata e cobre, principalmente no Tirol e no território que hoje pertence à Hungria. Fugger não era proprietário das minas, mas possuía direitos de exploração, participações e preferência sobre os minérios. Essa garantia se revelaria altamente valiosa e para o mundo

Segundo Martin Kluger, autor de vários livros sobre a história dos Fugger, a Índia naquela época, era tecnologicamente e economicamente muito superior à Europa – o que impulsionou os negócios do alemão.

“Outra coincidência foi que Vasco da Gama encontrou a rota marítima para a Índia em 1498, pouco depois de os Fugger terem ingressado na extração de minério de cobre em Neusohl (hoje Banská Bystrica, na Eslováquia) em 1495. Isso aconteceu numa época em que o cobre era mais procurado do que nunca. Ou seja, os Fugger possuíam quantidades valiosas em armazém que, de repente, se tornaram muito mais valiosos”.

“Ele sabia que precisava de ser  indispensável para sobreviver. Ele tinha que ser a única pessoa a quem imperadores e príncipes pudessem recorrer para conseguir dinheiro rapidamente. O imperador Maximiliano estava constantemente em guerra e precisava pagar aos mercenários que, do contrário, teriam voltado para suas aldeias e não lutariam por ele”.

“E o único que podia providenciar dinheiro rápido para Maximiliano, quando ele precisava, era Fugger”, complementa o biógrafo.

Legado de Fugger

Como banqueiro, Fugger revolucionou o sistema de crédito ao convencer o papa a flexibilizar a proibição eclesiástica de cobrar juros. A cobrança de juros por cristãos deixou de ser automaticamente punida.

E o motivo era simples. “As fontes da época, inclusivé do Vaticano, mostram que não era segredo para ninguém que o Papa também gostava de obter rendimentos elevados – proibição de juros à parte”, de acordo com o historiador económico Lars Börner em declarações à  rádio Deutschlandfunk.

Em contrapartida, Fugger passou a participar das receitas do clero, inclusivé do controverso comércio de indulgências, que financiou a construção da Basílica de São Pedro em Roma e acabou por provocar a reação de Martinho Lutero.

“Podemos discutir como ele modernizou as finanças, como permitiu às pessoas tomarem dinheiro emprestado com juros, como ajudou os Habsburgo a conquistar metade do mundo, como desencadeou involuntariamente a Reforma ao irritar Lutero. Mas o que realmente permanece é seu projeto habitacional em Augsburg: chamado Fuggerei. Sem ele, ninguém além dos historiadores falaria de Fugger, pois foi o primeiro projeto de habitação social do mundo”.

A Fuggerei existe até hoje. Os moradores pagam nominalmente o mesmo aluguer de 500 anos atrás. Valor que hoje é inferior a 1 euro por ano. As casas também são consideradas modelo de habitação social e a única condição imposta é que os habitantes rezem três vezes ao dia. Pessoas do mundo inteiro visitam o conjunto, que é o símbolo mais visível do legado de Fugger.

 

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