Habermas – Isto Está Tudo Ligado

Recordo hoje, com particular gratidão, o facto de ter podido escutar pessoalmente o Professor Jürgen Habermas. A primeira vez foi em Brighton, no sul de Inglaterra, no verão de 1988; confesso que então compreendi pouco do que ouvi. A segunda vez foi em 2013, em Atenas, por ocasião do Congresso Mundial de Filosofia: pude de novo acompanhar de perto, ao vivo, a sua argumentação – sempre exigente e difícil, naturalmente imponente e, a cada passo, mais convincente; sobretudo, diria hoje, mais “urgente”.
É a partir desta experiência, e diante da enorme bibliografia que Habermas nos deixou, que decidi recorrer, agora, à ajuda da inteligência artificial para condensar, em forma de Manifesto, algumas intuições centrais do seu pensamento sobre o que deva – ou possa – ser a nossa vida em sociedade. O texto que se segue nasce deste exercício; assumo‑o, com inteira liberdade, como meu, enquanto leitor e intérprete de uma obra que muito me ultrapassa.
Vivemos em sociedades onde a palavra pública se degrada, a técnica domina, o lucro orienta decisões e muitos se sentem descartados. A reflexão de Jürgen Habermas ajuda a pôr nome a esta crise: a vida social deixa de ser tecida pela conversa honesta entre pessoas e passa a ser comandada por sistemas impessoais – dinheiro, burocracia, propaganda. Como crentes, reconhecemos aqui um sinal de desordem profunda: a nossa forma de vida deixa de ser dialogal, deixa de honrar a dignidade de cada rosto e de escutar o clamor dos pequenos.
Habermas lembra que a sociedade só é verdadeiramente humana quando se organiza a partir da racionalidade comunicativa: pessoas que falam e escutam com seriedade, apresentam razões, se deixam interpelar, procuram compreender‑se mutuamente. Nessa perspetiva, a política, a economia, os media e as instituições não deveriam ser espaços de mera luta estratégica por interesses, mas lugares onde se procura, tanto quanto possível, a força do melhor argumento. Esta visão coincide, em muitos pontos, com a tradição bíblica: o Deus de Israel e de Jesus é um Deus que fala, escuta, discute, chama à justiça e à misericórdia. A Aliança é, antes de mais, uma história de diálogo.
A partir deste horizonte, proponho algumas correções urgentes. Em primeiro lugar, recuperar a palavra como lugar de verdade e não de manipulação: nas famílias, nas comunidades, na esfera pública. Isso implica recusar o insulto fácil, a partilha irrefletida de boatos, a lógica do “espetáculo” e criar espaços onde seja possível discutir a sério, com respeito, mesmo em desacordo. Em segundo lugar, dar prioridade às pessoas sobre o êxito: a racionalidade comunicativa supõe que cada um tenha voz; a fé lembra‑nos que cada pessoa vale mais do que todos os mercados. Famílias, escolas, paróquias e sinagogas devem ser lugares onde ninguém é medido apenas pelo desempenho.
Em terceiro lugar, proteger o “mundo da vida” contra a colonização total pela lógica económica e tecnocrática. Para Habermas, esse mundo da vida é o horizonte de sentido, de cultura, de fé, de solidariedade onde aprendemos a ser gente. Quando a família, a educação, a festa, a oração e a amizade são absorvidas pela pressa, pela produtividade e pela diversão vazia, perdemos o núcleo humano da convivência. A tradição sabática judaico‑cristã recorda‑nos que o tempo deve ser santificado: precisamos de horários, ritmos e escolhas que preservem espaços de gratuidade, oração, estudo, encontro real. Em quarto lugar, importa fortalecer uma democracia verdadeiramente deliberativa.
Não basta votar de tempos a tempos; é preciso criar e cuidar de esferas públicas onde todos – e especialmente os mais fracos – possam exprimir a sua experiência e influenciar decisões. Comunidades de fé podem ser escolas de participação: formando consciências, encorajando o envolvimento cívico, oferecendo lugares concretos de debate informado e de compromisso com os pobres, os migrantes, as vítimas de violência, os descartados. A justiça que a Bíblia pede não é abstrata: tem a ver com rostos concretos e com estruturas concretas.
Por fim, a reflexão de Habermas ajuda a articular fé e espaço público num contexto plural: os crentes são chamados a trazer as suas convicções para o debate comum, mas de modo argumentado, traduzindo‑as em razões que possam ser compreendidas também por quem não partilha a mesma fé. E a sociedade laica é convidada a não excluir, à partida, a contribuição ética e espiritual das tradições religiosas.
Assim, a herança judaico‑cristã e a proposta habermasiana convergem num ponto decisivo: a nossa forma de vida só será verdadeiramente humana se se deixar orientar por uma conversa honesta, inclusiva e exigente, na qual ninguém seja reduzido ao seu papel, ao seu rendimento ou à sua utilidade.
Trata‑se, portanto, de compreender que o pensamento de Habermas, aplicado às nossas situações concretas, nos conduz a exigências muito simples e, ao mesmo tempo, muito radicais: falar com mais verdade, escutar com mais atenção, discernir com mais rigor, decidir com mais justiça, esperar com mais coragem. É assim que, pouco a pouco, a fé e a razão dialogante podem ajudar a curar uma sociedade ferida, como é a nossa, esta em que nos toca viver.
Enfim, como sujeito de pensamento e intérprete – necessariamente parcial – de alguns aspetos da obra, imensa, de Jürgen Habermas, faço questão de, na minha oração, também encomendar a Deus a alma deste grande pensador europeu do nosso tempo. Ele apresentava‑se como descrente; mas, em várias ocasiões – e também naquela que a fotografia que guardo representa – não hesitou, nas suas obras mais tardias, em aproximar‑se, com autêntica humildade intelectual, dessa Verdade dialógica que entendia ser o núcleo fundante da «razão comunicativa».
Por João Vila Chã

Habermas – Isto está tudo ligado

LIVROS & IDEIAS – O filósofo alemão Jürgen Habermas faleceu, anunciou a sua editora neste sábado, 14 de março de 2026, com base em informações da família do intelectual. Ele morreu aos 96 anos em Starnberg, no sul da Alemanha.

Jürgen Habermas foi um dos filósofos mais influentes do século XX e início do XXI, reconhecido mundialmente por renovar a Teoria Crítica, formular a Teoria da Ação Comunicativa e defender uma democracia baseada no diálogo racional entre cidadãos.

O trabalho de Habermas trata dos fundamentos da teoria social e da epistemologia, da análise da democracia nas sociedades sob o capitalismo avançado , do Estado de direito num contexto de evolução social  (no qual a racionalização do mundo da vida ocorre mediante uma progressiva libertação do potencial de racionalidade contido na ação comunicativa, de modo que a ação orientada para o entendimento mútuo ganha cada vez mais independência dos contextos normativos) e da política contemporânea, particularmente na Alemanha.

  • Filósofo e sociólogo alemão, nascido em 1929 e falecido em 2026 aos 96 anos.
  • Principal representante da segunda geração da Escola de Frankfurt.
  • Dedicou-se a temas como democracia, esfera pública, linguagem, racionalidade e integração europeia.
  • Participou ativamente dos debates políticos do pós‑guerra, tornando-se uma das vozes morais mais respeitadas da Europa.

As vertentes da análise e reflexão do seu pensamento

Teoria da Ação Comunicativa

  • É a sua obra mais importante.
  • Defende que a racionalidade humana não se reduz à técnica ou ao cálculo: existe uma racionalidade comunicativa, baseada no diálogo orientado ao entendimento.
  • A sociedade deve ser organizada de modo que as decisões sejam tomadas pela força do melhor argumento, não pelo poder econômico ou burocrático.

Esfera Pública

  • Habermas descreve a esfera pública como um espaço de debate racional entre cidadãos.
  • Democracias saudáveis dependem de uma esfera pública vibrante, livre e crítica.
  • Sua análise tornou-se referência mundial nos estudos de comunicação e democracia.

Democracia Deliberativa

  • Propõe que a legitimidade política nasce do debate público inclusivo.
  • Influenciou constituições, tribunais e teorias políticas contemporâneas.
  • Defendeu a integração europeia como forma de superar nacionalismos.

Reconstrução da Modernidade

  • Ao contrário de Adorno e Horkheimer, Habermas não vê a modernidade como fracasso total.
  • Acredita no potencial emancipatório da razão e da comunicação.
  • Propõe uma modernidade “inacabada”, que deve ser aperfeiçoada.

As Obras principais de Habermas (1962)

1. Mudança Estrutural da Esfera Pública (1962)

  • Obra de estreia e uma das mais citadas.
  • Analisa o surgimento da esfera pública burguesa e o papel da comunicação na democracia.
  • Fundamenta estudos modernos de comunicação e mídia.

2. Conhecimento e Interesse (1968)

  • Explora a relação entre formas de conhecimento e interesses humanos.
  • Marco na epistemologia crítica.

3. Teoria da Ação Comunicativa (1981) — 2 volumes

  • Sua obra-prima.
  • Desenvolve a ideia de racionalidade comunicativa e diferencia “mundo da vida” e “sistema”.
  • Influenciou profundamente sociologia, filosofia e ciência política.

4. Consciência Moral e Agir Comunicativo (1983)

  • Introduz a ética do discurso, baseada na validade universal de normas discutidas racionalmente.

5. Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade (1992)

  • Consolida sua teoria da democracia deliberativa.
  • Discute legitimidade, constituição e participação cidadã.

6. A Inclusão do Outro (1996)

  • Debate multiculturalismo, direitos humanos e universalismo.
  • Defende uma ética inclusiva e dialogal.

7. Entre Naturalismo e Religião (2005)

  • Discute o papel da religião em sociedades seculares.
  • Propõe um diálogo racional entre perspectivas seculares e religiosas.

8. Também uma História da Filosofia (2019–2020)

  • Obra monumental em dois volumes.
  • Reinterpreta a história da filosofia ocidental sob a ótica da razão comunicativa.

Outras obras relevantes

  • A Técnica e a Ciência como Ideologia (1968)
  • Problemas de Legitimação no Capitalismo Tardio (1973)
  • A Crise de Legitimação (1973)
  • A Nova Intransparência (1985)
  • A Constituição da Europa (2011)

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