ACADEMIA – O que não se diz quando falamos de intervenção psicossocial e espiritual no idoso
Quando se fala de envelhecimento nos jornais, em campanhas públicas ou em discursos institucionais, o tom tende a ser prudente e consensual. Fala-se de envelhecimento ativo, de solidão, de demência, de respostas sociais, de redes de apoio e de boas práticas.
Trata-se de temas importantes, necessários e socialmente relevantes. No entanto, quem trabalha em contexto clínico, particularmente na consulta de psicologia com pessoas idosas, reconhece facilmente que existe uma parte significativa da experiência psicológica e espiritual do envelhecimento que raramente encontra espaço no discurso público.
Não por irrelevância, mas porque é complexa, ambígua, desconfortável e difícil de traduzir em mensagens simples.
O que não se diz
Este artigo propõe-se refletir sobre aquilo que é menos dito quando se fala de intervenção psicossocial e espiritual no idoso, trazendo para o espaço público dimensões que surgem de forma recorrente na prática clínica, mas que permanecem frequentemente silenciadas nos media. Dar nome a estes silêncios não é um exercício académico; é um ato de humanização do envelhecimento.
O silêncio da espiritualidade
Um dos primeiros silêncios diz respeito à espiritualidade. No discurso mediático, espiritualidade e religião surgem muitas vezes como conceitos sobrepostos, quando, na prática psicológica, essa equivalência é claramente insuficiente. A espiritualidade, entendida de forma ampla, refere-se à procura de sentido, à relação da pessoa com a sua própria história, com os seus valores, com o sofrimento, com a finitude e com aquilo que considera significativo (Pargament, 2007).
Na consulta de psicologia com idosos, surgem frequentemente questões espirituais que não se organizam em torno de crenças religiosas formais: a necessidade de reconciliar escolhas passadas, o peso da culpa, o desejo de perdão, a avaliação do legado deixado, o medo da morte ou, paradoxalmente, o medo de continuar a viver em condições de grande limitação. Estes temas são centrais no processo terapêutico, mas raramente aparecem nos jornais, talvez por não caberem facilmente em narrativas positivas ou mobilizadoras.
A psicologia do envelhecimento reconhece que a revisão de vida é uma tarefa desenvolvimental central na velhice (Erikson, 1982). Esta revisão não é apenas cognitiva; é profundamente emocional e espiritual. Quando não encontra espaço de expressão, pode traduzir-se em sofrimento silencioso, frequentemente confundido com depressão ou resignação.
O sofrimento psicológico
Outro aspeto pouco falado é o sofrimento psicológico que não se enquadra claramente em categorias diagnósticas. Os media tendem a privilegiar temas como a depressão no idoso ou as demências, por serem clinicamente reconhecíveis e socialmente compreensíveis. Contudo, grande parte do sofrimento observado em consulta não corresponde a uma perturbação mental, mas a uma vivência acumulada de perdas.
O envelhecimento é frequentemente acompanhado por lutos sucessivos: morte de pessoas significativas, perda de papéis sociais, diminuição da autonomia física, alterações da imagem corporal e redução do estatuto social (Worden, 2018). Muitos destes lutos não são socialmente reconhecidos, o que dificulta a sua elaboração. O idoso é muitas vezes incentivado a “ser forte”, a “não se queixar” ou a “agradecer o que ainda tem”, mensagens bem-intencionadas que, na prática, podem invalidar o sofrimento.
Na consulta, surgem frases como “não estou deprimido, estou cansado de perder” ou “não tenho doença nenhuma, mas dói-me a vida”. Este tipo de sofrimento, profundamente humano, é raramente abordado no espaço mediático, talvez por não oferecer soluções rápidas nem indicadores quantificáveis.
A coexistência de sentimentos contraditórios
A narrativa pública sobre a velhice tende a ser polarizada. Por um lado, a imagem do idoso resiliente, sábio e agradecido; por outro, a do idoso frágil, dependente e vulnerável. O que fica de fora é a ambivalência emocional, tão frequente na experiência real do envelhecimento.
Na prática clínica, é comum observar a coexistência de sentimentos aparentemente contraditórios: gratidão pela vida vivida e cansaço de continuar; amor profundo pela família e ressentimento por antigas feridas; desejo de autonomia e medo da solidão; vontade de viver e aceitação da morte (Knight & Laidlaw, 2009). Esta ambivalência não é sinal de patologia, mas expressão da complexidade emocional humana.
Nos jornais, a ambivalência é difícil de comunicar. As manchetes preferem mensagens claras, emocionalmente lineares e facilmente interpretáveis. Contudo, ao omitir esta dimensão, corre-se o risco de criar expectativas irrealistas sobre o que significa envelhecer “bem”.
O silêncio da intimidade
Um dos maiores silêncios no discurso público sobre o envelhecimento diz respeito à sexualidade e à intimidade. Existe ainda a ideia implícita de que o envelhecimento implica a extinção do desejo, da necessidade de toque e da intimidade emocional. A investigação demonstra, no entanto, que a sexualidade na velhice não desaparece; transforma-se (DeLamater & Koepsel, 2015).
Na consulta psicológica, surgem questões relacionadas com desejo, frustração, vergonha, relações afetivas tardias, viúvez, novas parcerias e identidade sexual. Muitos idosos referem sentir-se invisíveis nesta dimensão, tanto para a família como para os profissionais de saúde. O silêncio social em torno da sexualidade do idoso pode contribuir para sentimentos de inadequação e solidão emocional.
Falar de sexualidade e intimidade na velhice não é um exercício provocatório; é reconhecer uma dimensão fundamental da dignidade humana.
O idoso no processo terapêutico
Outro aspeto pouco explorado nos media é o papel ativo do idoso no processo terapêutico e nas decisões sobre a sua própria vida. O discurso público tende a representar o idoso como destinatário de cuidados, e não como agente de escolhas. Na prática psicológica, porém, a intervenção psicossocial eficaz assenta no reconhecimento da autonomia psicológica da pessoa idosa, mesmo em contextos de grande dependência física (Baltes & Baltes, 1990).
Na consulta, trabalha-se frequentemente com escolhas difíceis: aceitar ajuda ou resistir a ela; permanecer em casa ou mudar para uma instituição; manter tratamentos ou redefinir objetivos de cuidado. Estas decisões têm uma forte componente ética e existencial, mas raramente são abordadas no espaço mediático, onde predomina uma visão assistencialista.
Os limites da intervenção psicológica
Num contexto social orientado para a eficácia e para a resolução de problemas, fala-se pouco dos limites da intervenção psicológica. Nem todo o sofrimento pode ser eliminado, nem todas as perdas podem ser compensadas. Na velhice, a psicologia trabalha muitas vezes com processos de aceitação, integração e significado, mais do que com mudança no sentido tradicional (Yalom, 2008).
Aprender a viver com a finitude, com a dependência progressiva ou com a proximidade da morte não é desistir; é um trabalho psicológico profundo. Este tipo de intervenção é difícil de comunicar nos jornais, porque contraria a lógica da melhoria contínua e das soluções rápidas.
Finalmente, um dos maiores silêncios diz respeito ao fim de vida. O medo de morrer, o medo de morrer sozinho, o desejo de não ser um peso, a necessidade de fechar ciclos e de deixar sentido são temas frequentes na consulta psicológica com idosos (Neimeyer, 2019). No entanto, continuam a ser considerados demasiado pesados ou desconfortáveis para o discurso público generalista.
Promover a dignidade é combater o pesssimismo
Falar destas questões não promove o pessimismo; promove a dignidade. A psicologia, enquanto espaço de escuta, permite que estas preocupações sejam expressas sem julgamento, algo que o discurso social nem sempre facilita.
Se até aqui foi feita uma leitura sobre aquilo que permanece pouco visível quando se fala de intervenção psicossocial e espiritual no idoso, importa agora dar um passo adicional: traduzir esta reflexão em ação concreta.
A complexidade do envelhecimento, tal como surge na consulta de psicologia, não se esgota na compreensão teórica nem na denúncia dos silêncios do discurso público.
Pelo contrário, exige respostas quotidianas, simples e humanas, que possam ser integradas na relação com a pessoa idosa, seja em contexto familiar, institucional ou clínico.
As estratégias que se seguem não pretendem oferecer soluções universais nem receitas fechadas, mas antes orientações práticas que ajudem a criar espaços de escuta, reconhecimento e dignidade, onde o sofrimento psicológico e espiritual possa ser acompanhado de forma respeitosa e ética.
As estratégias estão escritas, respeitando a ordem dos temas abordados anteriormente para que tanto o público geral, para o profissional ou para o cuidador possa agir, e não apenas refletir.


Espiritualidade é escuta, não explicação:
Para todos
- Criar momentos regulares de conversa sobre a história de vida, sem corrigir nem moralizar.
- Fazer perguntas abertas como: “O que é que, olhando para trás, sente que foi mais importante na sua vida?” “Há algo que gostasse de ter dito ou feito de forma diferente?”
- Respeitar silêncios: nem todas as questões espirituais precisam de resposta imediata.
Para profissionais
- Integrar perguntas de sentido e valores na avaliação, mesmo quando não há referência religiosa.
- Utilizar exercícios de revisão de vida, cartas simbólicas ou narrativas autobiográficas.
- Validar dúvidas existenciais sem tentar “resolver” o desconforto.
Para cuidadores
- Permitir rituais pessoais (escrita, música, fotografias, objetos significativos).
- Evitar frases como “não pense nisso” ou “isso já passou”.
Nem todo o sofrimento precisa de tratamento, mas todo precisa de reconhecimento:
Para todos
- Reconhecer que tristeza, cansaço emocional e desânimo podem ser respostas normais às perdas.
- Substituir a pergunta “está bem?” por: “O que tem sido mais difícil ultimamente?”
Para profissionais
- Diferenciar sofrimento existencial de psicopatologia.
- Trabalhar lutos simbólicos: perda de identidade profissional, autonomia, papel familiar.
- Usar validação emocional antes de qualquer intervenção cognitiva.
Para cuidadores
- Não minimizar perdas (“há piores”, “podia ser pior”).
- Reconhecer verbalmente: “Faz sentido sentir-se assim depois de tudo o que perdeu.”
Ambivalência emocional não é ingratidão, é humanidade:
Para todos
- Aceitar que sentimentos contraditórios podem coexistir.
- Evitar exigir coerência emocional (“decida-se”, “tem de ser grato”).
Para profissionais
- Normalizar a ambivalência como parte do envelhecimento saudável.
- Ajudar a pessoa a nomear emoções opostas sem escolher uma como “certa”.
- Trabalhar a tolerância emocional, não a eliminação do conflito interno.
Para cuidadores
- Não personalizar a ambivalência (“ele está ingrato”).
- Ouvir sem defender nem justificar a família ou as decisões tomadas.
Negar a intimidade, afeto, sexualidade é uma forma de negligência emocional:
Para todos
- Reconhecer que a necessidade de afeto não desaparece com a idade.
- Respeitar relações afetivas tardias sem infantilizar ou vigiar excessivamente.
Para profissionais
- Perguntar explicitamente sobre intimidade quando apropriado.
- Criar um espaço seguro para falar de desejo, vergonha ou frustração.
- Trabalhar a sexualidade como vínculo, não apenas como ato sexual.
Para cuidadores
- Respeitar privacidade.
- Evitar comentários depreciativos ou jocosos.
- Permitir expressões de afeto consensuais, mesmo em contextos institucionais.
Cuidar não é substituir a vontade do outro:
Para todos
- Incluir a pessoa idosa nas conversas que lhe dizem respeito.
- Perguntar: “O que é importante para si nesta fase da vida?”
Para profissionais
- Avaliar capacidade de decisão de forma individualizada, não com base na idade.
- Apoiar decisões mesmo quando não coincidem com as preferências da família.
- Trabalhar a autonomia possível, não a autonomia ideal.
Para cuidadores
- Oferecer escolhas reais (mesmo pequenas).
- Evitar decidir “para poupar sofrimento” sem escutar.
Estar é, às vezes, tão ou mais terapêutico do que “intervir”:
Para todos
- Aceitar que nem tudo pode melhorar.
- Valorizar presença e companhia, não apenas progresso.
Para profissionais
- Trabalhar aceitação, significado e integração da perda.
- Abandonar a lógica exclusiva da mudança.
- Usar abordagens existenciais e narrativas.
Para cuidadores
- Não pressionar para “ter força” ou “pensar positivo”.
- Estar presente sem tentar animar constantemente.
Falar da morte não apressa o fim; alivia o caminho:
Para todos
- Permitir falar da morte sem mudar de assunto.
- Perguntar: “Há algo que gostasse que fosse respeitado no futuro?”
Para profissionais
- Integrar temas de fim de vida na intervenção psicológica.
- Trabalhar o medo de morrer e o medo de depender.
- Facilitar despedidas simbólicas e encerramento de ciclos.
Para cuidadores
- Não evitar conversas difíceis por medo de “tirar esperança”.
- Respeitar desejos expressos, mesmo quando são desconfortáveis.
A postura da presença
Atrevo-me a terminar este artigo deixando a seguinte reflexão: intervenção psicossocial e espiritual no idoso começa menos com técnicas e mais com uma postura de presença, respeito pela complexidade e coragem para estar onde o discurso social costuma calar.
Talvez o maior desafio quando se fala de intervenção psicossocial e espiritual no idoso seja aceitar que o envelhecimento não cabe em narrativas simples. O que menos se diz é, muitas vezes, aquilo que mais emerge na consulta de psicologia: a complexidade, a ambivalência, o sofrimento silencioso e a procura de sentido.
Dar visibilidade a estas dimensões não fragiliza a imagem do envelhecimento; pelo contrário, humaniza-a. Um discurso público mais honesto e profundo sobre a velhice pode contribuir não só para uma melhor compreensão social, mas também para práticas de cuidado mais éticas, empáticas e ajustadas à realidade vivida pelas pessoas idosas.
Se houvesse uma única estratégia transversal a todas as áreas, seria esta: Escutar sem corrigir, validar sem apressar, acompanhar sem substituir.

Por Susana Duarte
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Referências Bibliográficas:
Baltes, P. B., & Baltes, M. M. (1990). Successful aging: Perspectives from the behavioral sciences. Cambridge University Press.
DeLamater, J., & Koepsel, E. (2015). Relationships and sexual expression in later life: A biopsychosocial perspective. Sexual and Relationship Therapy, 30(1), 37–59. https://doi.org/10.1080/14681994.2014.939506
Erikson, E. H. (1982). The life cycle completed. W. W. Norton & Company.
Knight, B. G., & Laidlaw, K. (2009). Translational research on psychosocial interventions for older adults. Springer.
Neimeyer, R. A. (2019). Meaning reconstruction in bereavement: Development of a research program. American Psychological Association.
Pargament, K. I. (2007). Spiritually integrated psychotherapy: Understanding and addressing the sacred. Guilford Press.
Worden, J. W. (2018). Grief counseling and grief therapy: A handbook for the mental health practitioner (5th ed.). Springer Publishing Company.
Yalom, I. D. (2008). Staring at the sun: Overcoming the t
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