Hoje, no nosso movimento social e cívico publicamos um artigo, muito pertinente e atual, sobre o individualismo contemporâneo. Baseado no livro de Gilles Lipovetsky (2018), procuramos analisar como a sociedade pós-moderna se organiza em torno de um individualismo narcisista, hedonista e marcado pelo consumo, produzindo um sentimento de vazio e indiferença coletiva.
Fazer Opções na Era do Vazio
A partir do fim do século XX, surge uma “segunda revolução individualista”, diferente daquela dos séculos XVII e XVIII: em vez do indivíduo cidadão comprometido na esfera pública,
- aparece o indivíduo voltado para si,
- para o bem-estar,
- o consumo,
- o corpo e as emoções privadas.
As grandes narrativas políticas, ideológicas e revolucionárias perdem apelo, e no lugar delas instala-se uma cultura de hiperconsumo, diversão e busca de prazer imediato, em que o futuro deixa de ser visto como progresso coletivo garantido.
Nesta linha de pensamento, a sociedade é marcada pela indiferença de massa, pela sensação de repetição e estagnação e pela banalização da inovação: o novo e o velho são recebidos com o mesmo desinteresse.
- Desaparece a fé num “amanhã radioso” e na revolução;
- as pessoas concentram-se no presente, em “viver o momento”, conservarem-se jovens e cuidarem da própria vida afetiva e corporal.
Sendo assim, como isto conduz a um enfraquecimento do social e das instituições?
Lipovetsky mostra o enfraquecimento da esfera pública e das instituições sociais e políticas, que vão perdendo centralidade à medida que crescem os direitos e desejos individuais.
- Movimentos coletivos, solidariedades de classe e projetos comuns cedem lugar a nichos e tribos onde cada um procura semelhantes com os mesmos gostos e preocupações imediatas, produzindo um “narcisismo coletivo” de iguais.
A sociedade de consumo e a lógica de sedução
Um eixo importante é a análise da sociedade de consumo e da lógica da sedução: a multiplicação incessante de mercadorias, imagens e informações estimula desejos personalizados, ao mesmo tempo em que homogeneíza comportamentos.
- A comunicação e os média produzem um “vazio” em que se fala e se exibe muito, mas frequentemente “sobre nada”,
- apenas para se expressar e ser visto,
- reforçando o isolamento do indivíduo
- e a perda de espessura das experiências sociais.
Assim sendo, qual é o sentido do “vazio”? O “vazio” do título não significa ausência total de sentido, mas uma diluição de grandes finalidades coletivas e de referências estáveis. Resta um indivíduo livre, relativamente pacificado, porém mais frágil, entregue à gestão solitária de seu corpo, à sua afetividade e ao seu destino, num mundo em que tudo é possível, mas nada parece verdadeiramente obrigatório ou duradouro.
Mas como podemos aplicar as ideias de A era do Vazio na sociedade atual?
É possível usar estas ideias como uma espécie de “manual de leitura” da hipermodernidade: hiperconsumo, individualismo e redes sociais, que tornam ainda mais visíveis os fenómenos mencionados pelo autor, como por exemplo:
- menor confiança e envolvimento com política, religião, sindicatos, partidos, movimentos coletivos;
- foco quase exclusivo no “eu”, na autoimagem e na autorrealização emocional;
- tudo se organiza em torno de prazer, bem-estar, leveza e aparência;
- compramos não por status clássico, mas para satisfazer desejos individuais e preencher angústias;
- ”Likes”, seguidores e comentários nas redes sociais funcionam como “espelho” que alimenta a identidade e a sensação de valor pessoal;-
- e, a “regulação cool” das relações valoriza tolerância e liberdade, mas também facilita laços descartáveis, baixa responsabilidade e indiferença afetiva.
Em jeito de conclusão, a era do vazio aparece na dificuldade de engajamento duradouro: muita opinião online, pouca persistência em ações coletivas.
Usar Lipovetsky significa criar práticas que reencantem o comum: assembleias locais, associações, coletivos culturais, projetos de bairro que devolvam espessura ao espaço público.

Por Fernando Guimarães, Professor da Universidade do Minho
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