Cidadãos que, insistem na centralidade da justiça social, dos direitos humanos e do diálogo com o mundo contemporâneo, procurando renovar a presença da Igreja na sociedade atual em fidelidade ao Evangelho e à tradição, são designados por católicos progressistas.
Mas quem são os católicos progressistas? Designa-se por progressistas o conjunto de leigos, religiosos e clérigos que, a partir da segunda metade do século XX, leem a Doutrina Social da Igreja e o Concílio Vaticano II como um apelo à maior inserção nas lutas sociais, políticas e culturais do seu tempo.
Na América Latina, esse setor ficou fortemente associado à Teologia da Libertação, entendida como corrente católica que interpreta a fé cristã como libertação de condições injustas económicas, políticas e sociais.
Nesta conjuntura, a Igreja Católica progressista esteve presente em todos os níveis da instituição, de cardeais a comunidades de base, e foi descrita como um dos atores sociais mais importantes na formação da sociedade civil contemporânea.
Esses católicos criaram e apoiaram movimentos sociais urbanos e rurais, pastorais sociais e organizações populares, contribuindo para
processos de democratização, luta por terra, moradia, saúde e participação cidadã.
Os seus fundamentos teológicos e sociais principais assentam nas seguintes ideias:
- i) a Teologia da Libertação e outras correntes afins procuram articular o anúncio de Cristo com a análise crítica das estruturas sociais,
denunciando pobreza, autoritarismo e exclusão dos cidadãos como realidades incompatíveis com o Reino de Deus; e, - ii) textos conciliares como Gaudium et Spes (Alegria e Esperança) reforçaram a ideia de que a Igreja deve ler os “sinais dos tempos” e dialogar com a modernidade, legitimando o empenho de católicos em causas como democracia, direitos laborais, educação e participação política, social e cívica.
Tendo em consideração aquilo que acabamos de afirmar, que desafios, tensões e contributos específicos emergem para o desenvolvimento da sociedade atual?
A atuação progressista gerou tensões internas, sobretudo em torno da Teologia da Libertação, acusada por setores hierárquicos de ter assumido categorias marxistas de modo incompatível com a doutrina, o que levou a advertências teológicas e disciplinares.
No contexto atual, a Igreja vive forte polarização entre setores conservadores e progressistas, visível inclusive na receção ao pontificado de
Francisco, cuja visão social e ambiental é lida por muitos como tentativa de colocar a Igreja no século XXI, engajando-a em temas como ecologia integral, crítica ao capitalismo predatório e defesa da qualidade de vida.
Católicos progressistas ajudam a manter vivo, no espaço público, um discurso cristão preocupado com a dignidade dos pobres, o combate às
desigualdades e a organização de redes em torno da justiça social, através de pastorais e movimentos de base. Ao articular espiritualidade, participação política e diálogo intercultural e decolonial, essas correntes procuram atualizar a missão da Igreja, contribuindo para modelos de desenvolvimento mais inclusivos, democráticos e atentos às periferias sociais e culturais.
Finalizamos o nosso texto, sem antes refletirmos sobre qual o papel do Concílio Vaticano II na visão do Papa Leão XIV para a igreja moderna?
Para Leão XIV, o Concílio Vaticano II é a principal referência para pensar a Igreja no mundo moderno, funcionando como bússola ou “estrela-guia” do caminho eclesial hoje. Ele não o entende como rutura, mas como atualização fiel da tradição, que continua a orientar a missão evangelizadora num contexto marcado por mudanças culturais profundas.
Leão XIV insiste que o Vaticano II não corrige a Igreja anterior, mas aprofunda o legado dos Papas do século XX e XXI, em especial Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. O Concílio é apresentado como síntese onde passado, presente e futuro da Igreja se encontram, garantindo continuidade doutrinal e renovação pastoral ao mesmo tempo.
O Papa sublinha que o Vaticano II ajudou a Igreja a “abrir-se ao mundo” e a dialogar com os desafios da modernidade, sem perder a identidade cristocêntrica.
A Igreja é chamada a ler os “sinais dos tempos”, participar no debate público e colaborar na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, por meio do diálogo, do ecumenismo e do diálogo inter-religioso.
Em linha com Francisco, Leão XIV lê o Vaticano II como fundamento de uma Igreja “em saída”, formada por discípulos missionários que constroem pontes e promovem o encontro. O Concílio é visto como impulso permanente para que a Igreja se torne palavra, mensagem e diálogo, levando o Evangelho às periferias geográficas e existenciais.
O Papa aplica os princípios conciliares a campos específicos, como a vida consagrada, incentivando comunidades religiosas a redescobrirem as origens carismáticas e se inserirem mais profundamente nos desafios contemporâneos.
Assim, o Vaticano II torna-se, na visão de Leão XIV, chave interpretativa para reformas pastorais futuras: não um evento fechado no passado, mas um programa duradouro para a Igreja moderna.

Por Fernando Guimarães – Professor da Universidade do Minho
Foto de abertura: Nicolas Colombel – Cristo expulsa os vendilhões do Templo – 1682
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NOTA DA REDAÇÃO
As expressões “católicos progressistas” e “católicos conservadores” são usadas na linguagem comum e estão longe de ser consensuais no seio da Igreja Católica. Mas são úteis para a análise sociológica feita quando se trata de explicar na linguagem comum as diferentes opções pessoais e comunitárias que os cristãos adotam através da sua experiência religiosa.
Não pretendemos fazer doutrina e favorecemos a liberdade de expressão dos nossos colaboradores.
AM.
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