Mau Maria! Notícias da Alemanha

A Alemanha pediu esta segunda-feira, 16 de fevereiro, aos países europeus, em especial à França, para que adotem medidas de austeridade que permitam cumprir o objetivo da NATO de investir 5% do Produto Interno Bruto (PIB) em defesa.

O  ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Johann Wadephul, classificou o reforço das capacidades militares como existencial e enviou um aviso direto aos parceiros da União Europeia (UE): “Este apelo dirige-se a todos os países europeus. Serão necessárias discussões abertas e sinceras. Quem fala hoje de independência face aos Estados Unidos tem de fazer primeiro os trabalhos de casa”, disse, acrescentando que
rejeita a emissão de dívida comum para financiar o aumento dos gastos militares, e recordou que a meta de 5% aprovada na cimeira da NATO em Haia se refere a “prestações nacionais”.
Recordamos que na cimeira de Haia, em junho de 2025, os 32 membros da Aliança Atlântica comprometeram-se com um aumento das despesas com a defesa para 5% do PIB até 2035.
O compromisso visa garantir a capacidade da NATO para as tarefas que a organização considera fundamentais, nomeadamente, dissuasão e defesa, prevenção e gestão de crises, e segurança cooperativa.
O plano prevê pelo menos 3,5% do PIB para recursos fundamentais de defesa e cumprimento das metas de capacidades da NATO.
Até 1,5% do PIB de cada país será para proteção de infraestruturas críticas, defesa de redes, preparação civil, inovação e fortalecimento da base industrial de defesa.

Podem os países europeus cortar nas despesas sociais?

Com o envelhecimento acelerado da população, os países da Europa Ocidental conseguem manter — ou até cortar — prestações sociais sem pôr em risco a coesão social e a sustentabilidade económica?

A pressão demográfica é real Os países da Europa Ocidental enfrentam três tendências simultâneas:

  • Menos nascimentos
  • Mais longevidade
  • Menos população ativa por cada pensionista

Isto significa que os sistemas de pensões, saúde e cuidados continuados ficam mais caros, enquanto a base fiscal que os financia cresce mais devagar.

Cortar prestações sociais é politicamente explosivo

Tecnicamente, sim, os governos podem cortar prestações. Mas:

  • É politicamente impopular — especialmente porque os idosos votam mais.
  • Pode aumentar desigualdades, pobreza sénior e tensões sociais.
  • Pode gerar custos indiretos (por exemplo, menos acesso à saúde leva a mais internamentos caros).

Por isso, a maioria dos países evita cortes diretos e opta por reformas mais subtis.

O que os países têm feito em vez de cortar

Em vez de reduzir prestações, a Europa Ocidental tem seguido outras estratégias:

Aumentar a idade da reforma

  • França, Alemanha, Itália, Portugal — todos já aumentaram ou planeiam aumentar.
  • É a forma mais comum de “cortar” sem cortar.

Mudar fórmulas de cálculo das pensões

  • Indexações mais baixas
  • Fatores de sustentabilidade ligados à esperança de vida

Incentivar imigração qualificada

  • Para compensar a falta de trabalhadores e manter receitas fiscais.

Promover natalidade

  • Subsídios à família, creches gratuitas, licenças parentais mais longas.

Reforçar sistemas privados de poupança

  • Para aliviar pressão sobre o sistema público.

Então… conseguem cortar?

Conseguem, mas não sem consequências. E, na prática, quase nenhum país europeu ocidental está a cortar de forma direta. O que fazem é:

  • Reformas graduais
  • Ajustes automáticos
  • Transferência de custos para o futuro
  • Incentivos para trabalhar mais anos

Cortes diretos seriam vistos como um ataque ao modelo social europeu — algo que os governos evitam ao máximo.

Mas então em que ficamos?

O verdadeiro dilema não é “cortar ou não cortar”, mas sim: Como financiar um Estado social generoso quando há cada vez menos trabalhadores por cada reformado?

E aqui, cada país está a tentar equilibrar o tripé:

  • Sustentabilidade financeira
  • Justiça social
  • Aceitação política

Tendências em França, Portugal e Alemanha

Comparemos, na medida do possível,  França, Alemanha e Portugal — três países da Europa Ocidental com modelos sociais semelhantes, mas respostas muito diferentes ao envelhecimento populacional. Para perceber o que cada um pode (ou não) cortar nas prestações sociais, é essencial olhar para demografia, finanças públicas e política.

O que vemos em França

1. Demografia

  • Envelhecimento, mas menos severo do que na Alemanha ou Portugal.
  • Taxa de natalidade relativamente alta para padrões europeus.

2. Sistema social

  • Estado social muito generoso, especialmente em pensões e apoios familiares.
  • Forte tradição de proteção social e resistência popular a reformas.

3. Reformas recentes

  • Aumento da idade da reforma de 62 para 64 anos — gerou protestos massivos.
  • França evita cortes diretos e prefere reformas paramétricas (ajustar fórmulas, indexações).

4. Capacidade de cortar?

  • Politicamente quase impossível.
  • O país tende a financiar o sistema com mais despesa pública e mais impostos, não com cortes.

O que vemos na Alemanha

1. Demografia

  • Um dos países mais envelhecidos do mundo.
  • Forte dependência de imigração para manter a força de trabalho.

2. Sistema social

  • Pensões públicas menos generosas do que as francesas, mas ainda robustas.
  • Grande peso do setor privado complementar.

3. Reformas recentes

  • Aumento gradual da idade da reforma para 67 anos.
  • Debate sobre subir para 69 anos nas próximas décadas.
  • Incentivos à imigração qualificada para compensar o défice de trabalhadores.

4. Capacidade de cortar?

  • Maior do que a França, mas ainda limitada politicamente.
  • A estratégia alemã é:
    • aumentar idade da reforma
    • reforçar poupança privada
    • ajustar fórmulas de cálculo
  • Cortes diretos são raros, mas ajustes automáticos tornam o sistema menos generoso ao longo do tempo.

O que vemos em Portugal

1. Demografia

  • Um dos países mais envelhecidos e com menor natalidade da Europa.
  • Forte emigração jovem durante décadas reduziu ainda mais a base contributiva.

2. Sistema social

  • Pensões públicas representam uma fatia enorme da despesa do Estado.
  • Sistema relativamente generoso face ao rendimento médio nacional.

3. Reformas recentes

  • Fator de sustentabilidade ligado à esperança de vida.
  • Idade da reforma aumenta automaticamente todos os anos.
  • Congelamentos e atualizações abaixo da inflação em vários períodos.

4. Capacidade de cortar?

  • Tecnicamente, sim — e já o fez de forma indireta.
  • Politicamente, é sensível, mas menos explosivo do que em França.
  • O país tende a:
    • aumentar idade da reforma
    • limitar atualizações
    • ajustar fórmulas
  • Cortes diretos são possíveis, mas arriscados devido à elevada pobreza entre idosos.

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